
Essa água que cai do céu, que brota do chão, vira seiva, vira ar, vira sangue — é nossa mãe. Essa rede de cuidado invisível que nos nutre e sustenta, são nossas mães. E ao lembrar quem são, e onde estão, lembramos quem somos e para onde vamos.
O sistema que hoje governa o mundo o faz a partir do abuso das mães e suas crias. Mascarado de glamour por séculos, a verdade fica cada vez mais evidente porque estamos prontos para retomar as rédeas de nossas vidas. O sistema que queima florestas para abrir pastos assassina lideranças indígenas e quilombolas que defendem seus territórios. O sistema que contamina o rio com garimpo ilegal bombardeia comunidades inteiras para criar condomínios de luxo. O sistema que controla a terra controla o corpo — e usa a violência doméstica, o feminicídio, o estupro e a pedofilia como ferramentas de manutenção dessa ordem. A criança abusada, a mãe paralisada, a floresta queimada — são o mesmo crime, cometido pela mesma mão, contra a mesma vida. São tragédias pontuais, separadas — é um único genocídio da natureza criadora. Uma lógica que continua se reproduzindo a cada instante em que estamos ausentes do aqui e agora.
Fomos educados a nos ver como estranhos à terra que nos sustenta e aos povos que vivem integrados a ela. Essa separação estratégica tem nome, tem data, tem história — e não foi sempre assim. A divisão de terras que existe hoje na terra Pindorama, Abya Yala, que chamamos de Brasil, América, foi construída sobre sesmarias — grandes porções que a Coroa portuguesa concedia a quem exterminasse povos originários. No Sul desse país, até o início do século XX, havia quem fosse pago por pares de orelhas de indígenas como prova de serviço. O governo que se diz democrático legitimou essas posses sem jamais reparar — e segue lucrando com a mesma lógica quando leiloa o que resta.
É por isso que ecologia e sustentabilidade não podem mais ser movimentos separados da reparação histórica do direito à terra. E assim tampouco o autoconhecimento profundo, a espiritualidade que desperta para a consciência de unidade. Precisam urgentemente se tornar um movimento uno, porque a divindade, independe da sua crença, criou nossos corações, olhos, mentes, mãos e pés para estar na terra e fazer o bem.
Honramos cada ser humano tornado número nessa economia. Cada aldeia destruída, cada sabedoria que a história oficial distorceu e transformou em pecado. Chorar esse luto é acordar a memória viva de tudo que deveria existir para apoiar o que resiste. A raiva é necessária para dizer basta — para proclamar nossos direitos e defendê-los. Precisamos deixar fluir essas emoções — o choro, o grito — até se transformem em canto e espalhem aos 4 cantos a transformação. Esse é o chamado da Psicologia da Terra. Uma metodologia de cura para realizar o máximo potencial criativo humano enquanto guardiões da natureza, filhos do amor.
Para isso precisamos voltar às fontes — à natureza, às águas, ao corpo. Para limpar todo registro de que o corpo é pecaminoso, de que a terra é uma dimensão separada de Deus, de que o sagrado requer o sacrifício da matéria. Foi essa ideia que naturalizou a escravidão do povo — e foi ela também que instalou no lugar do caminho original uma espiritualidade de retiro, que busca a transcendência no afastamento do mundo, no desapego do amor concreto, na fuga do que é denso e vivo e fértil. Como se Deus estivesse longe da carne que sangra, que amamenta, que planta e cozinha e cura.
Estamos prontos para afirmar com orgulho que a terra é sagrada, que as águas de Oxum são santas, que são o sangue fértil dos ventres de suas filhas, e que sua carne tenra é um portal de reconexão com a Deusa. É a origem do amor, dentro de nossas casas, e deve ser tratado com toda a reverência que tem sido dedicada por tempo demais a altares sangrentos.
Ifá, a cultura milenar nascida na região que conhecemos hoje como Nigéria, na qual fui iniciada, é assim como toda cultura da terra, baseada na lei da reciprocidade. Ebó é o nome da tecnologia espiritual de alimentar as forças da natureza para ser digno de suas bençãos. Com toda gratidão e todo respeito a tradição sinto que precisamos colocar toda nossa devoção a serviço da proteção e reparação dos altares vivos da terra, com urgência. É tempo de transformar a simbologia em prática diária de co-criação.
Se queremos um mundo de paz, não basta rezar pela paz — precisamos investir onde ela está para que floresça. O verdadeiro altar de Oxum é o corpo da mãe banhando sua cria no rio. O altar de Oxossi é o guerreiro que protege as matas e seus animais. O altar de Onilê é a terra que se faz alimento sob nossos pés. Reverenciar imagens de Orixás enquanto seus corpos concretos no mundo são destruídos com a nossa complacência é uma dissociação cognitiva.
O alimento preparado com beleza e devoção e compartilhado com a comunidade já é a oferenda — não como símbolo, mas como ato concreto que alimenta os vivos, os ancestrais e as forças da natureza ao mesmo tempo. A cozinha na sua origem era o templo, laboratório das medicinas, onde o alimento se tornava cura e a cura se tornava comunidade — e a mãe que ali operava era sacerdotisa, porque seu rito era a vida mesma. Com a escravidão nos tomaram o direito de nos autorrealizar por esse caminho, e esse registro ainda opera em nossos corpos. Quando alimentamos com a consciência de que o divino habita em cada ser, o ato de nutrir se torna realização da sabedoria da vida — e nos tornamos canais da verdade. Quando o cozinhar é celebrado, quando é rezado, as grandes mães se restauram através de nós — e nos tornamos um com as grandes forças da natureza. Essa é a invocação mais potente que existe.
Nas cerimônias de nutrição da Escola da Terra, esse entendimento se torna ação. De quem planta em silêncio à madrugada, de quem colhe sob o sol, de quem cozinha com as mãos que carregam gerações — reconhecemos e sustentamos essa cadeia. Os cauris — conchas sagradas que por séculos serviram de moeda e oráculo em culturas da África e das Américas, e que ainda repousam em nossos altares como símbolo de prosperidade e destino — se realizam quando entram em movimento. Quando se tornam PIX, quando passam de mão em mão, quando alimentam. É no ato de dar que entramos na correnteza da generosidade — e é ela que nos sustenta de volta. O sagrado é o ato de alimentar — concreto, urgente, real. Há vidas que dependem de nós agora.
A guiança que recebi para realizar meu sacerdócio, resgatando os códigos matriciais encerrados pelo patriarcado, é de oferendar de volta à terra nada mais nada menos que o sangue menstrual de suas filhas, pulsando de úteros vivos, orgásmicos, e tudo que for necessário para que isso volte a ser uma realidade compartilhada e não um privilégio entre poucos. Que meu serviço seria democratizar o autoconhecimento somático baseado na divina natureza, devolvê-lo aos seus herdeiros para que se empoderem de sua verdadeira origem, e garantir que aqueles que dessa sabedoria bebessem seriam parte inevitável de um movimento de reparação histórica.
Que tudo isso seria feito numa grande festa, onde todos presentes seriam alimentados com consciência espiritual social e ecológica através do investimento em alimentos orgânicos, de agricultura familiar, com apoio à reforma agrária — cada escolha consciente é uma oferenda.
Que ao invés de criar uma nova casa espiritual levaria essas sementes para oferecer as irmãs e irmãos que já tem seus espaços de trabalho para inspirar que mais pessoas e coletivos possam restaurar o ritual cotidiano de reverenciar a origem do alimento: a água que molha o solo, a plantadeira que semeia, colhe e cozinha, e assim reverenciar o verdadeiro sagrado feminino que alimenta a humanidade em silêncio como a terra, e que está na hora de ser vista. Assim os sistemas coloniais remanescentes da escravidão se dissolvem em sistemas de colaboração e todos nós curamos da crueldade a que fomos impostos.
A lógica colonial de extração se combate com movimentos colaborativos, concretos, enraizados. As frô são diferentes — cada uma com sua raiz, sua cor, seu tempo — mas bebem do mesmo solo. E esse solo se nutre de três princípios: a guardiania no lugar da posse, que garante direitos iguais ao cuidado da terra independente de quem tem dinheiro ou não; a consciência da origem do que se consome — o alimento, os recursos, a mão de obra, os serviços; e o fortalecimento ativo de movimentos sociais que reparam o que foi destruído. Quem não tem clareza sobre esses princípios acaba perpetuando a mentalidade que veio para combater.
Na eARTh Escola da Terra esse princípio é prática. O Altar da Terra é o mecanismo vivo pelo qual 40% do lucro gerado pela eARTh é distribuído em 7 destinos de 5% cada — em gratidão pelo serviço que prestam à humanidade. Seis deles sustentam guardiões que já estão em campo: a Mãe Awapay, guardiã da cultura do Povo Shanenawa no Acre, transmissora da cultura originária da floresta amazônica; o Santuário das Búfalas de Brotas, acolhidos aqui como os mestres animais que são; a UIPA SP, que defende os animais domésticos violentados na cidade de pedras; a ONG internacional Save The Children, que cuida de crianças em zonas de guerra, porque não podemos naturalizar o genocídio acontecendo hoje na Palestina e Sudão; o Templo da Terra em Juquitiba — território dos sonhos de Francisco, santo menino agroecológico e seus bichinhos resgatados, em processo de consolidação; e a Casa Quilombo Aldeya em Salvador — espaço de cuidado e aprendizagem coletiva para uma comunidade em processo de resgate de sua ancestralidade diaspórica. O sétimo destino — a Fonte Maria das Frô — é o fundo vivo dedicado à aquisição e libertação de territórios matriciais organizados pela lei do cuidado, para mães jardineiras multiétnicas que plantam, colhem e alimentam.
Acreditamos na generosidade humana para fazer essa revolução acontecer. O Templo da Terra em Juquitiba é o primeiro território liberto da lógica de posse individual para a lógica do cuidado — e é o modelo que queremos multiplicar. As terras pertencem à própria Terra e ao invés de donos, reconhecemos guardiões.
Muitos de nós, seres sensíveis que se dedicam à arte e à cura, carregamos um nó antigo: uma contração na hora de receber. Sentimos a desigualdade do mundo com clareza que dói — e essa sensibilidade às vezes se volta contra nós. Como se prosperar fosse trair quem sofre.
A água precisa correr para alimentar. A árvore frutifica pela raiz. Fechar o fluxo é outra forma de escassez.
O ebó não é apenas o que damos. É com o que conectamos, ao que nos abrimos. É a tecnologia de colocar o fluxo em movimento consciente — receber com clareza de destino já é ato sagrado. Quando sabemos para onde vai o que passa por nós, o receber se transmuta: deixa de ser acumulação e se torna canal. Nossa abundância individual não contradiz a justiça coletiva — ela é condição para que possamos sustentá-la com consistência, sem nos destruir no caminho.
No lançamento do livro Psicologia da Terra, todo lucro gerado será oferendado integralmente a esses guardiões.
A Fonte Maria das Frô é uma estratégia concreta de transmutação — um portal de saída da lógica do medo da escassez para a lógica do multiplicar e dividir. Quando direcionamos parte do que flui através de nós para quem já está em campo guardando a vida, nos tornamos canais da mesma força que invocamos.
Quem sentir a verdade desse manifesto é convidado a dar o seu próximo passo de integração espiritual na matéria e receber os alinhamentos de propósito e prosperidade geradas por essa mudança de paradigma. A oferenda pode ser mensal — 5%, 10% do seu lucro — que abençoem igualmente os 7 núcleos do Altar da Terra; ou uma oferenda direta a um deles. Ou ainda a inspiração, para ressignificar a doação e contribuir para guardiões da vida que já estão ao seu lado — precisando de ajuda na sua comunidade, no seu território. Veja o que realmente toca seu coração e legitime essa informação: você faz parte.
Quando destinamos parte do que recebemos para fortalecer quem guarda a vida, estamos fazendo ebó no altar vivo onde os orixás habitam — e nos tornamos também canais das mesmas forças que invocamos. Essa é a lógica da real prosperidade: ao apoiar os guardiões da natureza, entramos em reciprocidade com ela, e o que flui através de nós se multiplica. Se sentir o chamado de co-criar o Altar da Terra — transborde como puder e quiser.
Precisamos formar um círculo de cuidadores de quem cuida. No centro, as vidas mais vulneráveis. Ao redor, quem tem mais e pode abraçar mais. Círculo por círculo, esse é o núcleo vivo do altar da terra. Construímos por baixo, por dentro, por entre — rede por rede, território por território, mãe por mãe, cria por cria, semente por semente. A isso chamamos eARTh Escola da Terra — o reconhecimento vivo de que todos esses movimentos são o mesmo. Ancestrais do futuro somos — pela preservação da vida, pela reverência à inocência de todas as criaturas.
Asé-ooo.